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My Cherry Lips

Um blogue de lifestyle bem docinho!

Qui | 03.08.17

Não devemos ter vergonha de pedir ajuda

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 Foto: Graziela Costa

 

Há duas semanas o mundo recebia a notícia da morte de Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park e uma das figuras mais influentes da música feita nos anos 2000. Chester tinha 41 anos e tinha-se enforcado. Para muitos era mais um músico que se tinha suicidado e mesmo eu confesso que nos primeiros minutos após ter lido a notícia pensei o mesmo. No entanto, mais tarde quando fui dormir comecei a pensar: os Linkin Park foram a primeira grande banda que vi. Tinha 16 anos, tinha me esforçado para melhorar as minhas notas (era a condição que os meus pais me impuseram para ir ao concerto) e ir ao concerto desta banda no dia 9 de setembro de 2003 mudou a minha vida.

 

Mudou porque quando as luzes se apagaram e se começaram a ouvir os primeiros acordes de guitarra e os gritos do público eu senti "ok, isto é o meu mundo e eu vou ter de trabalhar em algo assim, só não sei em quê". No entanto, não foi só a minha vontade em trabalhar na área da música que os Linkin Park influenciaram, pois foi a sua música que também me deu força para aguentar toda adolescência. Aliás, lembro-me perfeitamente de todos os dias vir da escola, a sofrer, após ter sido sido vítima de mais um episódio bullying e fechar-me no quarto a ouvir e a cantar o "Hybrid Theory".

 

Na altura, aquele disco parecia curar instantaneamente todos os males da minha vida e apesar de não ter curado, sentir aquela raiva na voz e ler aquelas letras que me lembravam o que eu estava a passar trazia-me algum conforto.

 

Aliás, não era só a mim que aquelas músicas traziam algum "conforto", pois elas eram o "apoio" de todos aqueles que tal como eu se identificavam com os sentimentos presentes nas músicas dos Linkin Park. Assim, saber que ele se tinha suicidado era uma desilusão porque "poxa" se ele me ajudou porque é que ninguém o ajudou a ele. Ou se calhar ele nem pediu ajuda e foi aí que eu percebi o que eu tinha feito há cerca de um ano e meio atrás.

 

Ora, em maio de 2016, numa noite em que estava de rastos porque tinha perdido o meu pai, estava a odiar o meu trabalho e eu e o meu namorado tínhamos acabado decidi fazer algo de que hoje me arrependo, isto é decidi tomar uma carteira inteira de calmantes/tranquilizantes com intuito de "apagar".

 

Nessa noite estava a chorar compulsivamente, a minha cadela andava à minha volta desesperada e eu liguei ao meu ex namorado a pedir para ele me vir trazer as chaves de casa que eu lhe tinha dado. Não precisava delas, mas tinha vergonha de pedir ajuda para evitar fazer aquilo. Lembro-me também que lhe liguei três vezes aos berros a pedir as chaves e de ele me dizer que viria no dia a seguir, mas para mim não chegava eu precisava de ajuda naquele momento e a minha mãe vivia a 300 km de mim.

 

Na última chamada disse-lhe "João vou tomar uma série de comprimidos depois vem ver da Júlia." e assim fiz. Não sei o que ele sentiu naquele momento (sei que nunca me perdoou, porque ainda hoje me diz que o magoei como nunca ninguém o tinha feito), mas sei que passados uns minutos alguém do 112 me ligou e tivemos a conversa mais surreal de sempre e que na verdade não me ajudou nada, mas entretanto lá chegou uma ambulância e fui sozinha até ao Hospital de Santa Maria.

 

 

Já no hospital estive a soro (o João esteve sempre a falar comigo para não me deixar adormecer) e depois falei com um médico que me perguntou se eu queria mesmo morrer. A resposta é não. Não, eu não queria morrer, apenas queria "apagar durante uns tempos" e ingenuamente pensava que acordando umas semanas depois os meus problemas passariam. No entanto, depois de horas a soro e de o João me ter vindo deixar a casa e de me dizer "pronto agora ficas aí" eu percebi "ok, tenho de lutar por mim própria". Ele não iria lá estar mais e naquela noite só ficou porque eu implorei.

 

Depois deste episódio comecei a ir ao psicólogo e posso dizer-vos que ajudou. Só tenho pena é de ter sido "obrigada" a desistir das consultas porque eram incompatíveis com o meu trabalho. Ainda assim, foi aquela "má noite" que me fez decidir pôr um ponto final naquele trabalho que estava a acabar comigo e começar de novo a processar devagarinho a dor da morte do meu pai e o fim do meu namoro com o João, ou seja nem tudo tem de acabar numa decisão mal pensada. Podemos e devemos pedir ajuda e se eu soubesse o que sei hoje tinha ligado para o SOS Voz Amiga, tinha ligado à minha mãe ou a qualquer outra pessoa. Não podia era ter deixado que o medo me vencesse por isso, se estão a ler este post e de alguma forma se identificam com o que eu passei não desistam de vocês porque lá fora há todo um mundo que não podemos deixar fugir!

 

Posto isto, peço desculpa pelo que te fiz sentir naquela noite João e peço desculpa a todos os que gostam de mim e fiz sofrer com este ato.

Graziela

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